-
Estão na gaveta.
Ela
mal havia entrado na sala e aquela voz já vinha lhe despertar
arrepios. Estava como sempre sentado naquela cadeira de vime, as
pernas cruzadas como rei ou boêmio. Mal se via seu rosto, mas sua
voz parecia cansada.
- O
quê?
- Os
contos. Estão na gaveta. Pode pegar, são seus de qualquer modo.
Ela
hesitou. Não esperava que fosse assim. Não assim.
-
Mas...
-
Estão na gaveta, não estão? – o assentimento veio quase
involuntário. Eles sempre haviam estado na gaveta. Totalmente
letárgicos. Em forma de dicionário. Caminhou até sua velha
escrivaninha e abriu a gaveta do meio. Ele olhava apenas.
-
Estão aqui. – e por que não estariam?
-
Pegue.
Sim,
pegue.
- Não
precisa acabar desse jeito.
- Eu
não posso fazer nada com eles. Com nenhum deles. São seus.
Ela
olhou para a pasta fechada. Mortos. Algo pesava em seu peito ao
pensar nisso.
- São
seus, não hesite. Demoramos tanto para chegar até aqui... – ele
ergueu uma mão – não me faça mudar de ideia.
Estremeceu.
Por que ele tinha que falar de modo tão cansado e tão rouco? Abriu
a pasta, eram sete grandes encadernados e um menorzinho, seu martírio
favorito. Foi direto a ele.
-
Claro...
- Não
fale nada. Não precisa...
- Está
nas suas mãos. Como sempre.
Olhou
para o texto em tinta clara. Claro. Por que azul à mão? Eram apenas
três folhas finas. O que ele poderia querer? Obviamente, ela já
sabia. Sempre soubera.
-
Somos seus. – ele se levantou e espanou os joelhos - nunca estivera
ajoelhado. Seus joelhos não estavam sujos. Ela segurou as folhas com
as duas mãos e com uma força que poderia ter rasgado todo o quarto,
destruiu o pequeno conto do Ladrão de Poesias.
Respirou
fundo. Nunca amara tanto alguém. O relógio marcava cinco e dez.
Estava sozinha no quarto. E acabava de se tornar uma assassina.
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